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Surdo News
Desde: 23/05/2003      Publicadas: 23      Atualização: 13/06/2003

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 Notícias

  12/06/2003
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Educação bilingue: O melhor para a Comunidade Surda

O Assunto bilingüismo é muito discutido entre a Comunidade Surda, os profissionais da área e os ouvintes interessados. O texto traz essa questão para você refletir.

<b>Educação bilingue: O melhor para a Comunidade Surda</b> Psicólogos, sociólogos, lingüistas e educadores têm tentado formular uma definição satisfatória de Bilingüismo. Nem sempre foi encontrada uma que fosse específica, útil e satisfatória e, por isso, utiliza-se esta: uma pessoa bilíngüe é aquela que fala, com facilidade, duas línguas, embora uma delas se sobressaia em relação à outra no cotidiano. Tal premissa é válida também para as pessoas surdas, já que se pressupõe que seja possível que cada cidadão surdo possa evoluir no conhecimento e uso da língua gestual portuguesa (LGP) e da língua portuguesa (LP).
Qualquer que seja o grupo social, a educação bilíngüe não é apenas um problema lingüístico, já que, antes de tudo, ela é de natureza sociolingüística, pois o importante é a interação da linguagem e dos seus dados sociológicos.
John e Horner (1971), defendem que: a pesquisa sobre o bilingüismo só é eficaz se for para além dos limites estreitos dos estudos lingüísticos e psicológicos.
Poderíamos perguntar: os surdos devem ser considerados como bilíngües? Deve ser instituído um sistema de educação bilíngüe nas escolas com projetos pedagógicos para alunos surdos?
Antes do mais, convém responder a uma outra questão: os surdos têm uma língua? Para isso, recorremos a C. W. Morris: “Uma língua é composta por uma pluralidade de signos cuja significação devem ser compreendida por um conjunto de intérpretes. Além disso, os signos devem ser de natureza a poder ser produzidos por seres humanos e a manter a mesma significação em situações diversas”.
Sem dúvida que, perante esta definição, afirmaremos que os surdos têm uma língua e que, em Portugal, ela é a língua gestual portuguesa. Apoiados nos estudos de Stokoe, Bellugi, Woodward, Marchesi, Vieira Ferreira e muitos outros investigadores, assumem que ela é a língua natural das pessoas surdas, é uma língua de corpo inteiro, rica e completa, com os seus modos específicos, a sua estrutura própria e a sua gramática.
Teremos de referir que, segundo os psicolingüistas, há dois tipos de pessoas bilíngües: o bilíngüe composto e o bilíngüe coordenado. O primeiro apenas tem um sistema lingüístico e mistura as duas línguas quase sem o saber, aprendendo a língua apenas no seu meio ambiente; o segundo parece operar em dois canais separados, sabendo qual a língua a usar e podendo aprendê-la em meios ambientes distintos.
Pode-se concretizar esta situação pensando que a criança surda filha de pais surdos é um bilíngüe composto e mistura a LGP e a LP sem o saber, enquanto que a criança surda filha de pais ouvintes pode ser um bilíngüe coordenado, utilizando a LGP com os cidadãos da comunidade surda e a LP com os cidadãos ouvintes.
Completaremos este raciocínio acrescentando algumas reflexões quanto ao bilingüismo individual - o que valoriza a competência individual em mais do que uma língua - e também quanto ao bilingüismo de sociedade, muitos cidadãos poderão não ter competência nessas duas línguas.
Assim, se alguns especialistas põem a ênfase no bilingüismo individual dos surdos nascidos de pais surdos, devemos estar conscientes que o bilingüismo é, de base, um fenômeno de sociedade na comunidade surda. A maioria dos surdos não tem desempenho satisfatório em LP, embora todos possam situar-se sobre a relação entre a LGP e a LP.
A respeito dessa questão, as opiniões e posturas são diversas e muito amplas. Existem diversos comportamentos no sentido da educação e domínio da língua pelos surdos.
Por exemplo: os nascidos surdos e que aprenderam a LP através de métodos orais, assim como os que se tornaram surdos após a aquisição da língua oral. Estes podem adquirir a LGP com os seus companheiros nas escolas de surdos ou com adultos surdos. Os surdos nascidos de pais surdos pertencem a um outro grupo. Há crianças surdas filhas de pais ouvintes que não conhecem nem a LGP, nem quase nada da LP.
Deve referir-se que a pesquisa relativa às vantagens e as desvantagens do bilingüismo e da educação bilíngüe pode parecer contraditória, dado que os estudos mais antigos nem sempre tinham um verdadeiro plano de investigação e conduziam, por vezes, a resultados algo disparatados, mas que têm vindo a ser clarificados ultimamente.
Há estudos recentes mostrando que, para as crianças surdas, o melhor meio de aprendizagem de uma língua é através da língua gestual, embora esta afirmação possa arrastar leituras diversas. Paralelamente, constata-se que os surdos filhos de pais surdos têm melhores desempenhos escolares e são mais equilibrados mentalmente e emocionalmente que os surdos filhos de pais ouvintes e não chega a haver diferença entre eles em relação à leitura labial e à capacidade de fala.
Está provado que a criança bilíngüe tem dois termos para uma mesma referência: a sua atenção concentra-se sobre as idéias e não sobre as palavras; sobre o conteúdo e a forma; sobre as significações mais que sobre os símbolos - fenômeno extremamente importante no processo intelectual. As crianças bilíngües são mais flexíveis no domínio cognitivo que os companheiros monolingues.
Sendo assim, tudo aponta para que a criança surda seja encarada como bilíngüe e, utilizando a LGP e a LP, construiria sobre a sua capacidade visual natural mais intensamente as suas capacidades cognitivas e intelectuais.
Mas há o que questionar: um bebe poderá aprender duas línguas? Pesquisas recentes confirmam que a criança é capaz de aprender muito mais do que aquilo que se pensava. O psicólogo Benjamim Bloom defende que à volta de 50% da inteligência se desenvolve antes dos 4 anos e 80% antes mesmo dos 8 anos. Os lingüistas concordam em dizer que antes dos 5 anos e meio a criança média tem o domínio da maior parte das estruturas da base da língua materna e o vocabulário suficiente para participar em atividades do seu interesse imediato. Há provas que o mesmo se passa em crianças surdas filhas de pais surdos, como o documentam os estudos coordenados por Ursula Bellugi quanto ao desenvolvimento lingüístico de tais crianças em comparação com os ouvintes filhos de pais ouvintes.
Por meio de um trabalho profissional com crianças surdas e às investigações realizadas, algumas observações/informações foram constatadas:
a) Na criança surda nascida de pais surdos, a comunicação infantil aparece num processo comparável ao da criança ouvinte, embora a linguagem se revista de forma gestual, permitindo uma realização tridimensional do enunciado, sendo esta disposição espacial muito mais rica que a monolinearidade do eixo voco-acústico. A criança pode significar várias coisas ao mesmo tempo, pode combinar signos e acrescentar à atividade das duas mãos a expressão facial. A sua língua materna é a língua gestual.
Ao longo dos primeiros tempos, as comunicações são multimodais e os pais utilizam poucos signos convencionais, indicando sempre o nome dos objetos em ordem a ajudar a criança a realizar o gesto-signo exato.
b) A criança surda, inicialmente, exprime-se também por sons, utilizando movimentos labiais quando em presença de pessoas ouvintes. Ela terá competência e predisposição para a comunicação multimodal. Para a criança envolvida num meio oralista, o canal voco-acústico tornar-se privilegiado, enquanto que a partir da mesma predisposição multimodal primitiva é a língua gestual que se desenvolverá na criança surda inserida num meio de surdez.
c) Na criança ouvinte filha de pais surdos os dois modos desenvolvem-se com uma adaptação precoce desde a inserção dum modo familiar de comunicação. A criança ajusta-se, verbal ou gestualmente, ao seu interlocutor.
d) Na criança surda filha de pais ouvintes, os resultados são diversos e estão correlacionados com as atitudes negativas ou positivas, de incitamento, de tolerância ou de rejeição sobre qualquer um dos modos de comunicação. Sobre este assunto, a afirmação de S. Goldin-Meadow: quanto à criação espontânea de gesto-signos por parte da criança que está predisposta não só a adquirir uma linguagem, mas também para criar uma linguagem.
e) A linguagem, qualquer que seja a sua modalidade, enraíza-se no tronco comum da comunicação multimodal precoce, tornando-se importante favorecer essa comunicação, porque havendo uma comunicação de base rica, facilitar-se-á sempre uma melhor diferenciação lingüística ulterior.

A conclusão é que a educação bilíngüe é uma opção muito desejável para a educação das crianças surdas, embora a maior parte das escolas encontre enormes dificuldades para iniciar projetos bilíngües. Os membros da comunidade surda e os intérpretes da língua gestual portuguesa devem partilhar, de igual modo, o controle, a administração e o ensino nos programas bilíngües para a população surda, ao lado de todos os outros intervenientes.
O projeto bilíngüe deve autorizar a livre utilização da língua gestual portuguesa, em si e por si, e não apenas como instrumento temporário para o ensino/aprendizagem da língua portuguesa, embora nunca possa desvalorizar esta hipótese.
Esta educação bilíngüe não é uma proposta fácil e nunca poderá ser entendida apenas como uma educação de compensação para a comunidade das pessoas surdas.


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